Econômico

Empresários que fecharam contam o que aprenderam com os erros

Se o momento econômico não é bom para os negócios, as micro e pequenas empresas são as que mais sofrem com isso.
Os dados demonstram: segundo a Serasa Experian, os pedidos de recuperação judicial bateram recorde histórico de janeiro a outubro (1.600) em relação ao período equivalente de 2015. A alta é puxada pelas empresas de menor porte (990), com alta de 91,5% nos pedidos.
“Há um impacto duplo na recessão: a queda na receita e o aumento dos custos”, afirma Luiz Rabi, economista da Serasa Experian.
Por mais que a diminuição no caixa e a restrição ao crédito imponham desafios, a razão central da implosão das micro e pequenas empresas é mais antiga.
A taxa histórica de mortalidade nos dois primeiros anos beira os 30%, segundo Enio Pinto, gerente nacional de atendimento do Sebrae, e 2016 deve fechar acima desse índice.
“A principal razão é o amadorismo. São pessoas que têm afinidade com a operação do negócio, mas não entendem de administração”, afirma o especialista. “É como querer ser médico sem ter estudado medicina.”
O coordenador-adjunto do Centro de Empreendedorismo da FGV (Fundação Getulio Vargas), Marcelo Aidar, destaca outro erro capital: subestimar o mercado, achando que certo produto ou serviço fará sucesso na região, ou não atingir o público ou o tíquete médio previstos.”Não há dinheiro ou recursos que supram a falta de clientes”, atesta.
A empresária Joyce Venâncio, hoje dona da marca de bonecas artesanais Preta Pretinha, na Vila Madalena (zona oeste de São Paulo), aprendeu isso na marra.
Em 1998, ela abriu um café com duas irmãs no Jardim Bonfiglioli (também na zona oeste), que não passou de um ano e meio.
“Hoje eu vejo como os empreendedores ficam deslumbrados. O Fran’s Café estava bombando naquela época e fizemos um café requintado, mas sem nenhum planejamento”, afirma.
Resultado: “Os moradores do bairro esperavam até o final de semana para se vestir melhor e tomar um cafezinho”, lembra.
“Me descapitalizei bastante, tive de voltar para o mercado de trabalho.”
Já o empresário João Gilberto Sanzovo, 32, deixou passar despercebido outro detalhe. Recém-formados em engenharia, em 2009, ele e mais dois amigos da faculdade transformaram a vontade de empreender na AJK Tech, uma startup de dispositivos de preços eletrônicos para gôndolas de supermercado.
Depois de equipar uma loja inteira com a tecnologia, em Jaú (interior de São Paulo) e atrair a atenção de clientes em uma feira do setor, apareceu o gargalo.
A empresa parceira que fornecia o display, na Itália, não conseguia enviar as remessas seguintes solicitadas. Pior: os equipamentos já instalados apresentaram defeito e deixavam os números deformados na tela.
“Aprendi algo básico para quem estuda marketing. Não se pode depender de um fornecedor só”, afirma Sanzovo.
Hoje sócio de três startups, ele aplicou o aprendizado na Link Monitoramento, empresa de rastreamento de veículos, para a qual mais se dedica. “Faço um balanço entre fornecedores do hardware, mão de obra terceirizada e operadoras de celular conforme a região e a demanda”, diz o empresário.
UOL

Cheques caem cada vez mais em desuso no comércio

Segundo especialistas, o cheque pré-datado parece mesmo estar com os seus dias contados. Pesquisas recentes mostram que essa alternativa de pagamento vem sendo cada vez menos adotada, muito em virtude da insegurança gerada pela atual crise econômica. Comerciantes em geral procuram evitá-la ao máximo hoje em dia e os próprios consumidores tendem cada vez mais a se sustentar na maior facilidade e segurança do cartão de crédito.
De acordo com uma pesquisa realizada pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), quase metade dos consumidores que possuem cheque (47,5%) nunca o utiliza na condição pré-datada. Os principais motivos: preferência pelo cartão de crédito na hora do parcelamento (35,8%), a falta de praticidade (24,8%) e a preferência pela quitação à vista (19,5%).
Já aqueles que continuam utilizando cheques como meio de investimento alegam que a principal vantagem dessa modalidade é o prazo quase sempre maior de pagamento oferecido nesses casos (38,6%). A segunda circunstância mais apontada é a possibilidade de consumir mesmo quando não se conta com dinheiro em espécie para tal (16,6%) e, em terceiro, a possibilidade de parcelamento variado nas compras (12%).
Com isso, a pesquisa aponta que a intenção de parcelamento continua imperando entre os brasileiros, porém, que a modalidade utilizada para tal está migrando cada vez mais do cheque para o cartão de crédito e meios eletrônicos como a Transferência Eletrônica Disponível (TED).
“O momento econômico nos exige bastante precaução e cautela. Mesmo tendo predominado por tanto tempo no comércio e se mostrar uma modalidade de transação bastante prática, tanto para o comerciante como para o consumidor, o cheque é um recurso muito vulnerável, muito suscetível a riscos de fraude e/ou estelionato. Então, por mais sistemático que seja muitas vezes, o cartão de crédito acaba compensando muito mais hoje em dia”, justifica a professora Carolina Grassi, na condição de consumidora.
A economista-chefe do SPC Brasil, Kawauti, explica que, de fato, o uso do cheque é bem menos prático tanto para o comerciante como para o consumidor e que o cartão de crédito acaba mesmo proporcionando mais segurança em casos de roubo.
“Em fatalidades assim, o consumidor pode simplesmente cancelar o cartão, medida muito mais simples e menos burocrática do que a sustação de um cheque, e o comerciante tem a opção de transferir o risco de inadimplência para a empresa emissora do cartão”, relembra Kawauti.
Ainda necessário. Por enquanto – Até aqui, o leitor entendeu bem que o cheque, por diversas razões, está mesmo saindo gradualmente de cena. Mesmo assim, é importante ressaltar que sua participação ainda é válida – aliás, bastante válida – para alguns segmentos e setores.
Vitor França, assessor econômico da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), explica que o uso do cheque, não apenas pré-datado, continua prevalecendo em setores formais que lidam com bens de valores mais elevados, como nas compras de imóveis e veículos, em que as transações bancárias e meios de pagamentos eletrônicos ainda não encontraram uma solução para substituí-lo.
O que ainda se compra com cheque – A análise feita pelo SPC Brasil indicou que os itens de vestuário e os eletrodomésticos são os principais produtos comprados com cheques, indicados respectivamente por 22,9% e 19,1% dos consumidores entrevistados. Em seguida, constam os produtos alimentícios (17,9%) e os eletroeletrônicos (15,2%).
No quesito ‘controle de gastos’, 37% dos consumidores alegaram dispor de anotações em agendas e cadernos, enquanto que um terço dos entrevistados dizem fazer esse tipo de controle por meio do próprio canhoto do talão e somente 18,1% deles indicaram o uso de planilhas no computador.Diante desses indicadores, o presidente do Sindicato dos Lojistas do Comércio de São Paulo (Sindilojas-SP), Ruy Nazarian, avalia que, no quesito ‘controle’, o cartão e crédito também fica em vantagem.“O controle de despesas também fica mais fácil com o cartão de crédito, uma vez que o valor de cada transação é registrado no ato. Em relação às atividades com cartão de débito, quase o mesmo: o valor é descontado na hora e é possível consultar todos os gastos na fatura. Com o cheque, existe a incerteza de quando ele será depositado”, compara o presidente do Sindilojas-SP.Dias contados – De acordo com especialistas, a perspectiva é mesmo a de que o cheque, enquanto modalidade de transação comercial, seja cada vez menos utilizado pelas pessoas. A tendência é inquestionável: além das inúmeras facilidades trazida pelos cartões de débito e crédito o cheque também perde pontos devido ao custo do processo de sua compensação para o sistema financeiro e pelo risco de inadimplência que os lojistas precisam assumir.Segundo Vitor França, da Fecomercio SP, o Banco Central já sinalizou o interesse de expandir os meios eletrônicos de pagamento justamente porque a participação do cheque como forma de pagamento é residual e não passa de 3% do consumo. No tocante à tendência, de acordo com o assessor econômico, ele deve ser extinto naturalmente no decorrer dos próximos anos ou até por uma orientação do BC que determine que ele não seja mais utilizado.
Sindilojas

“A proposta de Novo Código Comercial desfigura as instituições”

O Projeto de Código Comercial (PL 1.572) tramita desde 2011 no Congresso Nacional. Ao longo desse tempo todo, tem enfrentado uma grande resistência de diferentes setores empresariais.
Não é para menos. A proposta transita pelos mais diversos campos, mexendo em temas como a recuperação judicial, redefine figuras empresariais e critérios societários, entre outros temas, que abrangem desde a constituição da empresa à alteração do negócio e sua falência.
Um detalhe. Grande parte desses temas já foram readequados há pouco mais de dez anos, quando o novo Código Civil, de 2002, englobou o direito comercial.
Claro que as leis devem ser atualizadas sempre que necessário, mas há diversos meios para se fazer isso. “A regra mundial reza que não há mais necessidade de códigos, porque são demorados de elaborar e o custo benefício é elevado”, diz o desembargador Carlos Henrique Abrão, do Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP).
Para o desembargador, que é especialista em direito comercial, algumas reformas pontuais seriam mais eficientes, e menos traumáticas, que a ideia de um código amplo para as diretrizes empresariais.
A seguir, os principais trechos da entrevista:
Diário do Comércio – O senhor vê a necessidade de um código para o direito comercial?
Carlos Henrique Abrão – Nos últimos anos as empresas não conseguem obter crédito no mercado. Temos uma bolsa de valores que engloba 300 empresas, enquanto na Índia, no Canadá ou nos Estados Unidos, elas são 5 mil. Temos 300 mil lojas fechando pelo país. Não são leis que vão mudar o ambiente de negócio. Precisamos melhorar a infraestrutura dos portos, a malha ferroviária. De que adianta criar no papel o direito empresarial, se o ambiente empresarial é desfavorável. É como colocar no código que em todos os dias da semana teremos sol. Aí você abre a porta e está chovendo.
DC – E se o ambiente de negócio fosse favorável?
Abrão – Entre 2001 e 2004 o país teve um boom econômico e a lei comercial era a mesma, nada foi mudado. A influência da lei é relativa. O governo é que precisa dar ingredientes para fazer a economia andar… A regra mundial reza que não há mais necessidade de códigos, porque são demorados de elaborar e o custo benefício é elevado. Hoje, nas relações modernas, nós trabalhamos em micro sistemas, que reformam apenas aquilo que é necessário. O que precisamos é de uma lei quadro, ou seja, que defina princípios básicos.
DC – Por que uma proposta de código vingou?
Abrão – Em 2002, o Código Comercial foi atualizado e passou a fazer parte do Código Civil. Então houve uma discussão entre civilistas e comercialistas sobre quem teria prioridade: as obrigações comerciais ou a civis. Os comercialistas dizem que lá no STJ (Superior Tribunal de Justiça), os ministros, quando aplicam o direito, não olham o Código Comercial, porque este foi revogado pelo Código Civil, quando deveriam ver algumas questões com uma visão mais empresarial.
DC – A proposta que tramita no Congresso afeta as pequenas empresas?
Abrão – Sim, ela desfigurou completamente as instituições. Não faz mais de quatro ou cinco anos que foi criada a Eireli (Empresa Individual de Responsabilidade Limitada), que será extinta, caso o projeto seja aprovado, e acabaria transformada em uma sociedade unipessoal. Mais do que isso: o projeto extingue as sociedades simples. Todas essas se transformam em sociedades empresárias, até mesmo aquelas sociedades que não têm o objetivo de lucro, como sociedades de médicos com finalidades filantrópicas, virariam sociedades empresárias.
DC – O senhor vê alguma chance dessa proposta ser aprovada pelos parlamentares?
Abrão – O mais preocupante é que tem alguma chance de ser aprovado sim. Caso seja, pior para o país. São vaidades pessoais que contrariam interesses coletivos. Teriam de enterrar essa idéia de código e começar a discutir micro sistemas. Não se faz mais código comercial, e sim Lei Geral Empresarial, ou Lei Geral de Negócios. Há reformas muito mais prioritárias.
DC – Algo nos moldes da Lei Geral das Micro e Pequenas Empresas?
Abrão – Lá definem o que é uma microempresa, o que é uma pequena empresa, seu faturamentos. Já o código entra em campos que não deveria, como na recuperação judicial. Precisa ser algo que venha para simplificar, não para complicar. O empresário sabe muito mais que governo do que ele precisa para os seus negócios. O Estado precisa ser como um juiz de boxe: ele só intervém se alguém sacar uma arma ilegal. Quanto menos o Estado interferir na relação empresariais, melhor.
DC – O projeto do novo Código Comercial aumentaria essa interferência?
Abrão – Ele mexe até com a exclusão de sócios. Pela proposta, quem detém 5% de participação societária pode automaticamente excluir o sócio que discorde de uma deliberação, pode pedir o reembolso do valor que aplicou ou exigir o direito de recesso. E mais, o código reforça o poder da arbitragem. Claro que grandes empresas têm cláusulas de arbitragem e raramente vêm ao judiciário. Agora, um pequeno investidor que comprou um papel e acabou lesado, esse não tem recurso para ingressar na arbitragem, pagar os peritos. Mas não terá outro caminho para recorrer, a não ser esse ou ingressar com ação individual na Justiça.
DC – Mas a arbitragem não acabaria sendo menos custosa do que a ação Judicial?
Abrão – Não necessariamente. Se for uma ação coletiva na Justiça, como acontece no caso de acionistas de uma empresa, ficaria bem mais barato. O problema é que a proposta do novo Código simplesmente cortou o capítulo que trata de ação coletiva, não dá essa possibilidade. A opção dada é a ação individual ou a arbitragem. Veja bem, o grande receio das empresas são as ações coletivas.
DC – Há estudos que mostram o aumento da insegurança jurídica, e dos custos, caso a proposta seja aprovada. Isso pode acontecer?
Abrão – Demorou muito tempo para unificar questões depois da atualização do Código Civil. Foi um processo longo criar jurisprudências, unificar as questões. Por exemplo, havia dúvidas se deveria ser aplicada a Lei do Cheque ou o Código Civil. Mas hoje definiu e está tudo sumulado. Se for mudar isso outra vez, serão mais cinco, dez anos de insegurança. Não adianta mudar regra normativa, tem de mudar comportamento, conduta.
DC – Imagino um investidor estrangeiro, que acabou de compreender o Código Civil, e agora pode ter de apagar tudo da memória e enfrentar os 700 artigos do Código Comercial…
Abrão – O projeto afugenta o capital estrangeiro. Veja, em caso de falência, o projeto prioriza o credor nacional, em detrimento do internacional. Os credores estrangeiros só recebem se houver sobra, porque foram colocados abaixo do fisco, dos trabalhistas, previdenciário e brasileiros quirografários. É feita uma proteção completamente anormal ao investidor nacional…o capitulo do agronegócio é um terror maior ainda. A proposta não elabora a integração das cadeias produtivas, não considera o seguro rural, o seguro safra. O projeto faz uma distinção iníqua de cédula de produtor rural, de títulos rurais. O agronegócio, que estava funcionando, corre o risco de ficar a marrado com esse projeto.
DC – O senhor disse que em vez de um código tão abrangente, seria melhor reformar pontos do direito comercial que precisariam ser atualizados. Quais seriam as reformas prioritárias?
Abrão – Primeiro, mudanças na lei das Sociedades Anônimas, que foi muito boa, mas teve uma grande reforma no momento da privatização e foram retirados os direitos das minorias. Os minoritários hoje sumiram do mercado. Também seria preciso reformar a lei de fiscalização, que é a CVM, que precisa ter autonomia e independência. É necessária uma lei de reforma bancária, para que os juros sejam os juros de mercado. O banco não foi criado para ter lucro, e sim para ajudar as empresas. A visão do Brasil de banco é completamente distorcida. Tem de fazer uma reforma da lei de sociedade por quotas e da limitada também, que é o modelo mais em voga no Brasil. E seria muito importante uma reforma no comércio eletrônico, dando mais proteção ao consumidor. Muitas empresas não entregam o produto e não sofrem penalidade.
Diário do Comércio.

Lei de cotas, multas e razoabilidade

O Tribunal Superior do Trabalho (TST) deu provimento ao recurso de uma empresa contra a autuação do Ministério Público do Trabalho da 9ª Região (MPT) por descumprimento de percentual de empregados com deficiência, previsto na lei de cotas, afastando a imposição de multa e a indenização por dano moral coletivo.
No caso, a empresa conseguiu comprovar a tentativa de se adequar à exigência, anexando aos autos protocolo junto à agência do trabalhador, com anúncios de ofertas de emprego aos portadores de necessidades especiais, além de ter divulgado vagas destinadas aos deficientes pela internet, deixando claro que o descumprimento escapava integralmente da sua vontade.
A decisão monocrática e o Tribunal Regional do Trabalho (TRT) entenderam pela condenação da empresa por suposta violação ao preenchimento da cota, fixando multa por empregado que faltar para o integral cumprimento e, ainda, condenou a empresa ao pagamento de indenização por dano moral coletivo. Nesse sentido, o entendimento do TST vai de encontro à razoabilidade do caso em questão e é muito sensível ao atual momento econômico que as empresas estão enfrentando. Na decisão, o TST sustentou que “conquanto seja ônus da empresa cumprir a exigência prevista na lei, ela não pode ser responsabilizada pelo insucesso, quando ficou comprovado que envidou esforços para preencher a cota mínima, sendo indevida a multa, bem como o dano moral coletivo”. Ou seja, segundo a Corte, embora tenha de seguir a lei, a empresa necessita de interessados para contratar. Na ausência de mão de obra adequada, não seria razoável que o empregador fosse responsabilizado.
Fenacon

Sped garante salto de qualidade

O salto tecnológico com o Sistema Público de Escrituração Digital (Sped) não apenas desencadeou uma “revolução” na relação Fisco-contribuinte e no dia-a-dia das empresas como vem trazendo maior eficiência na apuração de resultados financeiros, contábeis e fiscais e avanços nos processos de gestão, com impacto sobre os resultados.
Embora ainda não existam estatísticas, até porque qualquer resultado nesse sentido depende da realidade de cada empresa, as melhorias, na avaliação de especialistas, já são percebidas. “Os ganhos são monstruosos”, resume Tânia Gurgel, professora, contadora e sócia da TAF Consultoria, ao se referir, por exemplo, aos benefícios apurados apenas com a implantação da Nota Fiscal Eletrônica (NF-e), que teve a adoção no Brasil iniciada há dez anos.
Na opinião da consultora, a agilidade que a NF-e trouxe ao setor de compras é impressionante, com impacto na logística de saída e entrada de insumos ou produtos em estoque. “A redução de custos com fretes e pessoal, eliminando horas extras, é enorme”, diz. Outro módulo do Sped que trouxe benefícios é o da Escrituração Contábil Digital (ECD), na avaliação de Geuma Nascimento, sócia da Trevisan Gestão & Consultoria (TGeC).
Segundo ela, as empresas conseguiram desativar diversas obrigações acessórias, entre elas o livro Diário, o livro Razão e balancete contábil analítico. “O tempo e os gastos envolvidos para impressão, encadernação e registros são infinitamente maiores se comparados ao tempo, materiais usados e taxas de registro da ECD”, explica Geuma.
Vale ressaltar, entretanto, que a mensuração real desse ou daquele ganho de tempo é variável de uma empresa em relação à outra, mesmo sendo do mesmo setor, já que isso depende da forma de contabilização usada, o que impacta, consequentemente, em maior ou menor consumo de tempo para depuração das informações.
Flagelação do caixa
Geuma avalia que o Sped tem também outros objetivos. Entre eles, o combate à sonegação e à fraude, que exigem organização, disciplina e maior rigor sobre os controles internos por parte das empresas. Ela cita vários fatores que deterioram o patrimônio e o caixa das empresas e que poderão ser minimizados quando todos os módulos do Sped entrarem em vigor. “Há alto grau de destruição de patrimônio, que em muitas empresas passa quase que despercebido. Dentre as formas mais ocultas e perversas, estão a gestão fraca, as fraudes, os roubos, os erros intencionais na folha de pagamento para beneficiar colegas de trabalho, a obsolescência de materiais, a ausência de inventário rotativo de estoques, a péssima gestão de contratos (tanto com clientes quanto com fornecedores) e de desempenho, as compras equivocadas, a má qualificação de fornecedores e de materiais e a falta de equipes qualificadas de gestão de perdas e de estoques.”
Além disso, sobre aquele balanço trabalhoso e moroso que toda empresa faz anualmente, Geuma afirma que ficou mais fácil com os módulos do Sped em vigor. Isso é muito relevante em um país onde, além da pesada carga tributária, a complexidade para o pagamento de impostos faz com que as empresas gastem, em média, 2.600 horas por ano para realizar operações que envolvem o pagamento de impostos, segundo o Banco Mundial.
Segundo Geuma, a ECD, que também reúne os dados monetários das diversas transações mercantis, é uma ferramenta com poder de organização de dados através dos respectivos registros. Mas, explica, ainda requer conhecimentos técnicos acurados e cuidados especiais por parte do contabilista. “O velho e bom conceito da contabilidade continua sendo exigido”, destaca.
Estoques
Sobre o Bloco K, que exigirá o envio eletrônico de dados sobre estoques, matéria-prima, uso de insumos no processo produtivo e detalhes industriais sobre a transformação em produto final, Tânia explica que as companhias conseguirão reduzir as perdas operacionais atuais. Pesquisas mostram que uma empresa chega a perder entre 6% e 9% de seu faturamento em processos de produção. “É muito, principalmente em um momento econômico recessivo como este”, alerta a especialista.
Com o Bloco K, as perdas devem cair para, no máximo, 5%. No caso extremo, isso significaria redução de quatro pontos percentuais. Assim, uma empresa cujo faturamento é de R$ 10 milhões por mês, por exemplo, conseguiria reduzir suas perdas mensais em R$ 400 mil, ou R$ 4,8 milhões em um ano, quase metade do faturamento mensal, calcula Geuma.
“Os ganhos nas margens acontecerão à medida que a gestão de estoques seja mais eficiente em termos de compras e de melhor qualificação de fornecedores de matérias-primas e/ou produtos, além da melhoria na gestão de estoques, afastando erros, obsolescências e desvios”, afirma a especialista.
O presidente do Sindicato das Empresas de Serviços Contábeis e das Empresas de Assessoramento, Perícias, Informações e Pesquisas no Estado de São Paulo (Sescon-SP), Márcio Massao Shimomoto, ressalta que a grande maioria das empresas ainda faz o controle dos estoques no “papel”, sem acompanhar as etapas de custos entre a matéria-prima e o produto final. “Percebo isso em alguns encontros com associações empresariais. Com o maior controle exigido pelo Fisco, os empresários terão dados para perceber perdas e implantar melhorias em todos os processos. Dessa forma, o contador poderá identificar o custo real, produzindo relatórios sobre giro de estoque e margem de lucro de cada item, e embasar decisões estratégicas”, destaca.
Esses dados, até agora muitas vezes não acompanhados pelos gestores, deverão causar um ciclo virtuoso sobre a economia. Para Shimomoto, a nota fiscal eletrônica teve um impacto muito positivo sobre as pequenas e médias empresas, inclusive sobre a longevidade dessas companhias.
Ganha-ganha
Se por um lado empresas estão sendo beneficiadas com o Sped, os ganhos do Fisco não ficaram nem um pouco atrás. Com o EFD Contribuições, o crédito tributário constituído pela Receita Federal no ano passado, por exemplo, somou R$ 125,6 bilhões, terceiro maior resultado da fiscalização, superado apenas em 2013 e 2014. Para este ano, o crédito tributário a ser recuperado pela fiscalização foi estimado em R$ 165 bilhões.
“Antes do Sped, apenas 28% dos autos de infração emitidos pela Receita eram mantidos. No ano passado, chegou a 99,87%. Isso quer dizer que o nível de acerto do Fisco é de quase 100% devido ao cruzamento de dados”, diz Tânia, da TAF Consultoria. Ela informa ainda que, no início desta década, um auditor da Receita, em média, obtinha R$ 16,3 milhões com fiscalizações. Hoje, a média atinge R$ 59,7 milhões. Com isso, os valores médios de fiscalização da Receita passaram de RS 6,1 milhões, em 2012, para R$ 12,4 milhões. Em 2015, alcançou-se 24,3 milhões de escriturações eletrônicas recebidas pela Receita.
DCI – Diário Comércio Indústria & Serviços

Crise aumenta a busca por serviços de consultorias

O atual cenário econômico de crise tem proporcionado aumento na procura por consultorias de serviços como redução de custos. Segundo especialistas ouvidos pelo DCI, a busca por empresas com essa atividade cresceu de 30% a 50% este ano.
Quem comemora o aumento da demanda são empresas como Expense Reduction Analytics (ERA), Recruiting Executives & Development ( RED) e S&H Consultoria. Segundo elas, a maioria dos clientes, quando estão com os negócios em momento de bonança, acabam perdendo o feeling para verificar se estão sendo eficientes ou se os gastos aumentaram por falta de atenção.
Na S&H, a demanda cresceu 33% no primeiro semestre deste ano. A empresa tem a perspectiva de terminar 2015 com crescimento acima de 40%. Na avaliação de Adriano Stringher, sócio da consultoria especializada em gestão financeira, o primeiro passo não é cortar funcionários diferentemente do que muitos pensam.
“Inicialmente devemos identificar o que está indo bem na empresa e em paralelo interromper o que não está dando certo”, explicou ele. Stringher indica outras etapas importantes, como replicar atividades que têm bons resultados, porém de forma mais barata, além de atuar com a carteira de clientes com estratégias específicas. “São algumas alternativas consideradas eficientes para obter redução de gastos em uma empresa.”
Depois dessas etapas realizadas, aí então pode surgir a consequência de ter de realizar algumas demissões, ressalta o sócio da S&H. Ele ainda lembra que as empresas deveriam rever suas operações de forma detalhada de dois em dois anos pelo menos.
O máster franqueado da rede ERA, Fernando Macedo, também defende que o primeiro passo para reduzir gastos não está no corte da folha de pagamento. “Nessa época de crise é natural que as empresas atirem para o lado do funcionário, mas somos contra”, afirma. “Quando você contrata uma pessoa, você investe em vários itens, entre eles o treinamento.” Neste ano, a demanda da ERA aumentou em 50%. A rede de franquia é especializada em redução de custo de empresas dos mais diversos segmentos e portes.
Planejamento
Trabalhar o presente, mas fazer projeções para o futuro é outro ponto de destaque na opinião do máster franqueado da ERA. Para ele, no primeiro momento é bem importante avaliar como está a operação da empresa. “Se você fizer uma análise correta sobre a receita da empresa e projetar a receita e o posicionamento dela daqui alguns meses ou anos terá uma visão privilegiada para operar no mercado.”
Macedo diz que as organizações precisam pensar no que vai acontecer no mercado em que atuam. “Tenho clientes que se preparam para a crise há dois anos”, explicou, ao defender que projetar a rentabilidade da empresa irá dar ao empresário um parâmetro com várias informações. Com isso, a empresa começará a economizar e melhorar a operação, indicou Macedo.
Setores
“Felizmente os empresários e os gestores estão olhando com mais carinho para todos os itens que permeiam a empresa. Mas é inegável dizer que a mira ainda é o corpo de funcionários. Somos contra esse conceito”, destacou o máster franqueado da ERA. Ele lembra que o campeão de gastos da maioria das corporações são as áreas de telecomunicações e tecnologias. O fato está relacionado ao dinamismo do setor. “Os movimentos são muito rápidos. É importante estar atendo às mudanças de pacotes de minutos, por exemplo”.
O sócio da S&H, Adriano Stringher, concorda com Macedo. “Olhar de forma segmentada para as diversas áreas da empresa pode gerar ações assertivas na hora de fazer uma redução de custos”, comenta. Ambos os executivos acreditam que ficar atento a pequenos detalhes na operação são ações que podem ajudar a não onerar a empresa.
Neste quesito também estão os benefícios aos funcionários, segundo a founder partner da consultoria de recursos humanos RED, Daniela Lopes. “Em média, as empresas pagam até dois meses de convênio médico e vale refeição para ex-funcionários. Pagar benefícios a funcionários que foram demitidos recentemente ainda é muito comum”, ressalta.
Por outro lado, Daniela comenta que os consultores da área de recursos humanos estão mais atentos no que diz respeito à gestão interna dos clientes. Para ela, a má gestão de atividades também prejudica a organização. “Horas extras por falta de uma gestão eficiente e faltas não justificadas podem gerar uma falsa necessidade de aumentar o quadro de funcionários”, explicou a especialista no segmento.
Sem abrir valores de faturamento, a Recruiting Executives também garante ter registrado aumento na demanda por serviços de redução de custo e comemora o período aquecido.
DCI

Especialistas sugerem mudanças na crise enfrentada no Brasil

Em tempos de crise e impasse econômico, a saída é não estacionar. Pelo contrário. “O momento é de mudança, de rever parâmetros e culturas dentro das empresas”, resumiu Masao Ukon, sócio do Boston Consulting Group (BCG), no evento Competitividade 2015, promovido pela Amcham Porto Alegre no Instituto Ling, em Porto Alegre.
Aod Cunha, sócio do BTG Pactual, ressaltou, contudo, que pensar e agir “fora da caixa” neste momento, apesar de necessário, também pode ser arriscado se o País não recuperar uma mínima credibilidade na política econômica em curto prazo. “Mas não é o que está se esperando, está se esperando exatamente que o Brasil consiga se recuperar.” O debate sobre como criar valor no contexto atual foi moderado pelo presidente do Conselho de Lojas Renner, Osvaldo Schirmer.
A produtividade brasileira nunca foi tão questionada e requerida. O atual cenário econômico evidencia grandes lacunas de produtividade nos mais diversos setores e indústrias, fazendo com que o momento seja de reorganização e inovação. As empresas brasileiras sabem que diversos fatores contribuem para o agravamento da questão da produtividade, como falta de mão de obra, infraestrutura deficiente, burocracia e outros. Entretanto, o contexto macroeconômico brasileiro apresenta oportunidades e caminhos viáveis para uma completa transformação. Masao Ukon, do BCG, detalhou as alavancas de eficiência que podem moldar, posicionar e consolidar a produtividade brasileira em outro patamar.
Assuntos como eficiência comercial e eficiência de capital foram abordados como soluções para que a transformação e a busca por produtividade seja não apenas prática e possível, mas efetivamente implementada nas empresas, nos negócios, e, consequentemente, refletida no País. “O lado mais positivo da crise, se é que é possível falar assim, é que ela propicia um cenário positivo para a mudança”, afirmou. “É preciso ser mais simples e mais eficiente. É preciso questionar o que pode ser feito diferente e implementar, de fato, estas mudanças, questionando regras e crenças antigas, muitas vezes enraizadas na cultura da empresa.”
Aod Cunha comentou sobre o cenário macroeconômico internacional e nacional, os desafios e oportunidades deste panorama e como se posicionar no atual momento de ajuste fiscal. “O esforço que está sendo liderado pelo ministro Joaquim Levy não é fácil. E quem pode tomar uma atitude mais sofisticada, ‘fora da caixa’, também corre riscos se o País não conseguir recuperar um mínimo de credibilidade na política econômica em curto prazo. Não é o que se espera, mas pode acontecer”, analisou. “É preciso enfrentar um ajuste fiscal mínimo que dê a capacidade de o País manter sua nota de crédito como investidor e o governo conseguir voltar a contar uma história de crescimento o mais rápido possível, sobretudo em relação à infraestrutura.”
Jornal do Comércio

O papel do líder em tempos de incertezas no cenário econômico

O papel da liderança em tempos de incerteza é o mesmo que em outros momentos. O líder deve cuidar para não ligar o piloto automático e deixar que suas preferências pessoais prevaleçam no lugar do comportamento mais indicado para a situação. Por isso, buscar o autoconhecimento é fundamental.
Além disso, para a sobrevivência da organização, o gestor deve se perguntar: por que existimos? Qual a razão do que fazemos? Este propósito deve agregar valor à sociedade. A “síndrome de Eike Batista”, autocentrada, onde querer ser o homem mais rico do mundo era a finalidade, não funciona.
Também é importante que a liderança não mascare ou omita resultados. A transparência da liderança cria o sentimento entre os colaboradores de responsabilidade com a organização.
Se você é um líder, mais do que nunca não pode ter medo de inovar, de pensar fora da caixa, pois isto ajudará a criar uma organização diferenciada, que funciona em harmonia num ciclo simultâneo, de dentro para fora. Olhe para dentro da organização. Seu melhor cliente é seu liderado. Atenda à necessidade dele e ele trabalhará motivado e comprometido, consequentemente satisfazendo seu cliente, que faz parte da sociedade, exatamente onde seu colaborador está inserido.
O gestor que valorizar ideias e opiniões da equipe, andando ao lado dela e não à frente, irá cocriar soluções para os problemas. Isto o auxiliará a traçar metas claras e possíveis de serem alcançadas neste momento de incertezas.
A crise é real, porém o medo e a insegurança são piores do que ela. É importante não se colocar no papel de vítima, pois a crise está aí para todos. O pessimismo não irá mudar o cenário atual da economia, mas o reposicionamento do líder, sim.
Assim, fica mais fácil reter os talentos na empresa, preservando o capital intelectual. As pessoas são o verdadeiro patrimônio das companhias e é papel do líder encontrar os caminhos para motivá-las. Por outro lado, se controlar o turnover – mantendo-o adequado em momentos de pessimismo – é algo desafiador, temos uma tarefa ainda maior: aumentar a performance dos que permanecem na empresa e, com isso, melhorar a produtividade e os resultados.
Não há como não imaginar que em um ambiente econômico inseguro as empresas diminuam suas folhas salariais, sobretudo nas áreas consideradas indiretas ou que não estão associadas com as receitas. Mas manter o foco na qualificação e retenção de talentos pode ser um divisor de águas em tempos difíceis. Desta forma, é necessário ter em mente que, mesmo diante de um ano de turbulências, reter profissionais competentes e talentosos, fazendo mais com menos, é fator determinante para o sucesso dos negócios.
Diário

Pessoas físicas também terão tratamento diferenciado da Receita

Além das empresas, as pessoas físicas também terão tratamento econômico-tributário diferenciado da Receita Federal a partir de 2015. Os parâmetros financeiros para esse acompanhamento foram definidos pela Portaria nº 2.193, da Receita, publicada no “Diário Oficial da União” desta quinta-feira (18). O acompanhamento é realizado em grandes contribuintes que, devido ao elevado nível de renda, requerem tratamento diferenciado da Receita. Por meio desse acompanhamento, auditores do órgão analisam, por exemplo, informações relativas à renda do contribuinte disponíveis nos sistemas da Receita, coletados em fontes externas (empresas, bancos, administradoras de cartões de crédito, cartórios de registro de imóveis etc.) e obtidos em estudos econômico-tributários do setor e da atividade de atuação. Se o cruzamento das informações indicar possível evasão tributária, os casos serão encaminhados à área competente para seleção e programação de fiscalização. Esse é o acompanhamento diferenciado, que prioriza o tratamento conclusivo desses casos em relação às demais atividades desenvolvidas pela Receita. Segundo a portaria, deverão ser indicadas para o acompanhamento econômico-tributário diferenciado em 2015 as pessoas físicas: a) cujo valor total anual dos rendimentos informados na declaração anual do IR, relativa a 2013 (entregues em 2014) , foi superior a R$ 13 milhões e, cumulativamente, cujo montante anual de lançamentos a crédito informados em Declarações de Informações sobre Movimentação Financeira (Dimof), relativas a 2013, foi superior a R$ 5 milhões; b) cujo valor total de bens e direitos informados na declaração do IR, relativa a 2013, foi superior a R$ 70 milhões e, cumulativamente, cujo montante anual de lançamentos a crédito informados em Dimof, relativas a 2013, seja superior a R$ 500 mil; c) cujo montante anual de aluguéis recebidos informados em Declarações de Informações sobre Atividades Imobiliárias (Dimob), relativas a 2013, foi superior a R$ 2,5 milhões; ou d) cujo valor total dos imóveis rurais, pertencentes ao titular ou aos seus dependentes, informados na Declaração do Imposto sobre a Propriedade Territorial Rural (DITR), relativa a 2013, foi superior a R$ 75 milhões.
Bem

Impostos são os entraves mais relevantes para negócios no Brasil.

Ainda falta quase um mês para o Dia das Crianças. Apesar da distância, o empresário Adriano Boscatte já desembolsou R$ 10 mil no pagamento de impostos dos produtos encomendados para garantir o estoque que vai atender à data comemorativa. Isso, sem nem um carrinho ou quebra-cabeça sequer ter saído do fabricante, no interior de São Paulo, rumo à sua loja em Belo Horizonte. O sucesso das vendas depende de uma série de variáveis, mas independentemente dos resultados, uma coisa é certa: os cofres públicos terão embolsado todos os valores que lhes são devidos. A carga tributária direcionada para o consumo em vez de voltada para a renda e o patrimônio é uma das críticas da iniciativa privada em relação às normas atuais. Estudo elaborado pelo Fórum Econômico Mundial 2014-2015 reafirma que a legislação tributária é a principal crítica dos empresários, muito acima inclusive dos problemas de infraestrutura, da burocracia governamental, corrupção, inflação e da qualificação da mão de obra.
No Relatório Global de Competitividade, elaborado para o Fórum Econômico Mundial 2014-2015, empresários brasileiros e de outros 143 países responderam a um questionário sobre quais fatores são os mais problemáticos para a realização de negócios no país em que eles atuam. Entre 10 opções, que vão da infraestrutura inadequada e do acesso ao crédito à inflação, 18,2% responderam que a legislação tributária é o principal entrave (veja quadro). Além do Brasil, somente a Polônia teve a questão tributária na primeira posição do ranking. No país europeu, 23,2% indicaram o quesito como o mais crítico.
Formado em ciências contábeis e pós-graduado em gestão financeira, Boscatte afirma que nem assim ele é capaz de compreender as regras tributárias. “Imagina quem é leigo”, diz o proprietário da Papelaria Mixpel. Ele afirma que a obrigatoriedade de pagar o imposto no ato da compra, como citado no exemplo do Dia das Crianças, obriga-o a fazer uma reserva no caixa da empresa só para pagar a chamada substituição tributária (regime de recolhimento do ICMS, mediante o qual se atribui ao contribuinte a responsabilidade pelo recolhimento do imposto relativo a negócio praticado por terceiro). “O capital de giro morreu. É o dinheiro que uso para manter a substituição tributária”, afirma. O correto, para ele, seria fazer a cobrança ao longo da venda.
Um exemplo da complexidade citada pelo empresário é sobre a dúvida gerada pela nomenclatura e classificação dos produtos. Segundo Boscatte, uma caneta simples e uma outra usada para a marcação em tecidos têm cargas tributárias muito diferentes. Às vezes, pode passar despercebida a diferença, sem má-fé. “O empresário entra na ilegalidade por falta de informação ou excesso de informação que não nos permite acompanhar”, afirma Boscatte, que diz ser impossível ser 100% correto.
MAIOR PESO A dificuldade de compreensão resulta na contratação numerosa de profissionais para destrinchar as regras, o que acarreta aumento no custo de produção. O coordenador do Núcleo de Inovação da Fundação Dom Cabral, entidade responsável por aplicar os questionários do estudo do Fórum Econômico Mundial no Brasil, Cláudio Arruda, diz que no ano passado, depois de responder às perguntas, um empresário paulista o abordou para convidá-lo a visitar a empresa para ver de perto o custo da gestão tributária. À época, o empresário disse que esse gasto seria maior até que o da mão de obra e de parte dos insumos. “É o grande gargalo que precisa ser resolvido para melhorar a competitividade”, diz o professor.
Segundo números do Sindicato Nacional dos Auditores-Fiscais da Receita Federal do Brasil (Sindifisco Nacional), 54% da arrecadação nacional é vinculada ao consumo; 27% à renda e 3,7% sobre o patrimônio. Essa distribuição agrava a desigualdade social, considerando que pobres e ricos pagam pouco sobre os bens acumulados. O ideal na visão do presidente da entidade, Cláudio Márcio Damasceno, seria a redefinição desses percentuais de forma a se manter o valor arrecadado pelos cofres públicos, permitindo a todas as esferas manter seus investimentos. A tributação sobre o patrimônio é próxima de 10% em países como Estados Unidos e Japão. A alteração resultaria em um sistema tributário progressivo, em que “quem mais ganha, mais paga”.
O Sindifisco Nacional entregou um documento aos três candidatos à Presidência da República (Dilma Rousseff, Marina Silva e Aécio Neves) com pedidos de modificação na legislação tributária, como a tributação sobre lucros e dividendos de pessoas jurídicas e a criação de um imposto sobre propriedade de aeronaves e embarcações. O presidente do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT), João Eloi Olenike, afirma que, se todos pagam igual o imposto, proporcionalmente o rico paga menos. “Se você tem patrimônio, é porque você consegue pagar.”
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